Durante minha trajetória no Direito Penal, testemunhei em primeira mão o poder – e os riscos – das provas produzidas a partir do reconhecimento de pessoas. O reconhecimento, seja presencial, fotográfico ou digital, pode ser decisivo em processos criminais, muitas vezes definindo o rumo de uma vida. Contudo, ele está longe de ser infalível. Já vi casos dramáticos, cujas consequências atingiram famílias inteiras, tudo por conta de um procedimento errado ou de uma precipitação no reconhecimento. Por isso, compreender como esses erros acontecem e como evitar injustiças é tão necessário.
Como funciona o reconhecimento de pessoas
Antes de discutir falhas, é preciso explicar o que, de fato, é o reconhecimento de pessoas em processos criminais. Sempre que falo do assunto, percebo que muita gente imagina cenas de filmes, com suspeitos alinhados atrás de um vidro espelhado. Mas, na realidade, essa prática pode assumir diferentes formatos:
- Reconhecimento presencial: a vítima ou testemunha vê os suspeitos pessoalmente, geralmente junto de pessoas sem relação com o crime.
- Reconhecimento fotográfico: a escolha do suspeito ocorre a partir de fotos, muitas vezes retiradas de bancos policiais antigos.
- Reconhecimento por imagem: o uso de vídeos ou gravações, inclusive de câmeras de segurança.
- Reconhecimento digital ou por software: as tecnologias modernas, incluindo reconhecimento facial, passam a figurar também em inquéritos e processos.
Apesar de avançarmos em tecnologia, as falhas persistem. E quando erro acontece, pode ser irreparável.
As falhas mais comuns no reconhecimento de pessoas
Muitas vezes, erros no reconhecimento acontecem por situações simples, mas que geram enormes transtornos. Em meu trabalho na ARAÚJO LUSTOSA ADVOGADOS, já examinei dezenas de casos em que uma identificação incorreta mudou tudo. As falhas se repetem, e é por isso que vale detalhar as principais.
Reconhecimento sem observância do procedimento legal
No processo penal brasileiro, o reconhecimento deve seguir etapas claras, como mostra o artigo 226 do Código de Processo Penal. Isso inclui apresentar ao reconhecedor vários indivíduos com características semelhantes, informar formalmente o suspeito sobre o ato e registrar tudo em ata.
Quando o procedimento não é respeitado, há risco de condenação injusta.
Infelizmente, muitos reconhecimentos são feitos sem essas cautelas. Já vi casos em que a vítima foi chamada a uma sala, viu apenas o suspeito e foi induzida a reconhecê-lo. Isso é totalmente inadequado e pode influenciar de maneira perigosa o resultado.
Exposição prévia do suspeito
É comum que vítimas vejam fotografias do suposto autor do crime antes da formalização do reconhecimento. Outras vezes, a polícia apresenta imagens de suspeitos já rotulados como culpados. Essa exposição direciona a escolha e amplia o risco de erro.
Reconhecimento por fotografia antiga ou de baixa qualidade
Já testemunhei processos nos quais vítimas precisaram apontar em fotos desgastadas, desatualizadas ou até mesmo tratando de pessoas com traços mudados pelo tempo. Em meu entendimento, essa é uma das falhas mais graves, pois parece simples, mas prejudica muito a precisão.
Fatores emocionais e psicológicos
O medo, o nervosismo e a pressão por apontar um culpado influenciam fortemente a mente humana. Estudos demonstram que a memória pode falhar diante de situações traumáticas. O cérebro acaba completando lacunas quando exposto a estresse.
- Pressão policial para reconhecer alguém rapidamente;
- Ambiente hostil ou falta de conforto na hora do ato;
- Influência de outras testemunhas ou familiares durante o procedimento.
E tudo isso pode levar, muitas vezes, ao erro involuntário.
Sugestão ou indução no ato do reconhecimento
Já acompanhei depoimentos em que a vítima ouve frases como “tem certeza que não foi esse garoto?”, indicando claramente quem a autoridade ou responsável espera que seja identificado. Esse tipo de sugestão distorce a lembrança e gera uma confissão enviesada.

Reconhecimento facial automatizado e seus desafios
O uso de softwares de reconhecimento facial parece ser mais preciso. Porém, já vi situações de erros graves, especialmente com pessoas negras ou de traços menos comuns nas bases de dados. Falhas no algoritmo, fotos ruins e modelos de inteligência artificial pouco treinados podem provocar injustiça.
Se quiser entender mais sobre provas digitais e como elas podem ser contestadas, recomendo o conteúdo sobre provas digitais em processos criminais.
Como se proteger dessas falhas?
Há medidas simples, mas poderosas, para reduzir o risco de um reconhecimento injusto. Desde a minha atuação no ARAÚJO LUSTOSA ADVOGADOS, desenvolvi estratégias e monitorei de perto os detalhes dos autos. Eis o que sempre oriento:
- Exigir o cumprimento de todos os procedimentos legais.
- Não aceitar reconhecimentos feitos isoladamente, sem a presença de outros semelhantes.
- Pedir acesso integral aos autos e às imagens utilizadas.
- Registrar detalhadamente eventuais irregularidades, preferencialmente com advogado presente.
- Solicitar exames periciais quando o reconhecimento envolver elementos digitais, principalmente vídeos de baixa resolução ou fotos antigas.
- Recorrer imediato em caso de dúvidas plausíveis ou procedimentos falhos, buscando a revisão criminal se for condenado injustamente. Saiba mais em quando pedir revisão criminal.
Além disso, para acusados de crimes digitais, instruo sobre provas de inocência em crimes digitais, porque nesses casos o reconhecimento tende a ser ainda mais sensível.
Como agir se houve reconhecimento errado?
Se você ou alguém próximo foi vítima de reconhecimento equivocado, deve atuar com rapidez e critério. Já acompanhei situações em que a demora custou caro. O importante é:
- Buscar acompanhamento jurídico imediatamente;
- Pedir acesso ao auto de reconhecimento e todas as provas usadas;
- Identificar violações ao procedimento e atacar esses pontos nos recursos;
- Sugerir medidas alternativas, como confrontação com outras provas (digitais, testemunhais etc.);
- Requerer perícias técnicas se for o caso – sobretudo se há vídeo ou reconhecimento digital.

Ter provas digitais, como localização via GPS, troca de mensagens, vídeos de câmera no local, pode ser definitivo. Meu conselho é manter esses dados sempre acessíveis e armazenados de modo seguro.
O papel de uma defesa criminal especializada
O trabalho minucioso de um escritório de defesa criminal, como o ARAÚJO LUSTOSA ADVOGADOS, é apontar cada falha, cruzar informações, buscar provas alternativas e garantir que a liberdade e a dignidade dos acusados sejam restauradas diante da acusação do Estado.
Para aprofundar no tema de Direito Penal moderno e prática forense, recomendo visitar nossa categoria sobre Direito Penal e, caso queira conhecer questões processuais centrais, conferir também conteúdos sobre processo penal.
Conclusão
Erros em reconhecimentos de pessoas são mais comuns do que se imagina e podem resultar em injustiças sérias. Com atenção aos detalhes, exigência do procedimento correto e assessoria técnica de confiança, é possível minimizar esses riscos. Se você sente que um reconhecimento incorreto está na base de um processo, não hesite em buscar ajuda especializada. Agende um atendimento com a equipe do ARAÚJO LUSTOSA ADVOGADOS e conheça nossa abordagem rigorosa e personalizada para a defesa criminal.
Perguntas frequentes
O que é reconhecimento de pessoas?
Reconhecimento de pessoas é o procedimento realizado para identificar formalmente alguém suspeito de um crime, a partir da memória visual de vítimas ou testemunhas. Esse reconhecimento pode ser feito presencialmente, por fotos ou por vídeo, sempre sob regras legais específicas para evitar erros.
Quais são as falhas mais comuns?
As falhas mais recorrentes são: desrespeito ao procedimento legal, exposição prévia do suspeito, uso de imagens antigas ou de má qualidade, influência psicológica/emocional no reconhecedor, indução ou sugestão durante o ato, e limitações dos sistemas automatizados, como o reconhecimento facial mal treinado.
Como posso me proteger dessas falhas?
Busque saber seus direitos, exija o cumprimento da lei (incluindo a presença de pessoas parecidas no momento do reconhecimento), registre irregularidades e armazene provas digitais que possam comprovar sua inocência. O auxílio de advogados experientes faz toda diferença para contestar possíveis erros.
Reconhecimento facial é seguro?
Apesar dos avanços, o reconhecimento facial apresenta margem de erro, principalmente quando usado sem perícia ou em bancos de dados limitados ou enviesados. Pessoas de raças ou perfis menos presentes nos dados tendem a experimentar mais falhas no reconhecimento por máquinas.
Vale a pena usar reconhecimento por biometria?
O reconhecimento por biometria é mais eficiente quando envolve múltiplos pontos (digitais, íris, voz), mas ainda pode apresentar inconsistências, especialmente se o procedimento não for controlado por especialistas e houver pressa no uso da tecnologia. Em processos criminais, sempre requer uma análise cautelosa e, se possível, complementação com outras provas.
